A moto que fica na garagem esperando o momento certo
Em 2016 dois amigos desistiram da viagem ao Uruguai e eu fui sozinho. Sete anos depois os dois estavam comigo a 4.780 metros no Paso de Agua Negra. O que separa a moto que roda da moto que espera quase nunca é dinheiro ou tempo: é uma data escrita no calendário.
Em janeiro de 2016 eu ia para o Uruguai com dois amigos. A gente tinha combinado tudo, do jeito que combinava desde a época da bicicleta. Perto da data, os dois desistiram. Eu fui sozinho.
Foram dez dias e 3.500 quilômetros. Dormi em Pelotas, desci a costa uruguaia por Punta del Diablo e Punta del Este, passei direto por Montevidéu e fui parar em Colonia del Sacramento. Atravessei para a Argentina pela ponte de Fray Bentos só para sentir o gosto, voltei por Concordia, Salto e Rivera. Na volta entrei pelo Brasil por dentro, peguei estrada de terra molhada entre Cambará do Sul e São Joaquim com pneu de asfalto e três baús cheios, e caí duas vezes. Sozinho, sem ninguém para ajudar a levantar a moto. Levantei, limpei o que deu e segui.
Os dois amigos que ficaram continuaram com as motos deles. Motos boas, revisadas, limpas, cobertas na garagem. Elas só não foram a lugar nenhum naquele janeiro.
Sete anos depois, a mesma dupla estava lá:
Em março de 2023 eu subi o Paso de Agua Negra, a passagem a 4.780 metros entre a Argentina e o Chile, que só abre no verão e não tem posto de combustível no caminho. Éramos seis motos, dezessete dias e uns 7.500 quilômetros, do Chaco argentino ao deserto do Atacama.
Eles foram. Toparam o altiplano, a poeira, o frio de madrugada e os dias de 800 quilômetros. Foram muito bem.
O que me chama atenção não é que eles desistiram em 2016. É o espaço entre uma coisa e outra. Sete anos. Não aconteceu nada de ruim nesses sete anos. Simplesmente não aconteceu.
A conta que quase ninguém faz:
Eu tenho uma planilha com todas as viagens de moto desde agosto de 2015. São 46 viagens, 296 dias de estrada e algo perto de 116.300 quilômetros até junho de 2026.
Parece muito. Divide por onze anos e dá uns 27 dias de estrada por ano. Menos de um mês. Cabe em férias e feriado de quem trabalha, e a maior parte desses dias é de viagem curta, de fim de semana, saindo de casa depois do expediente de sexta.
Não tem façanha nenhuma nesse número. Tem data marcada. Cada um daqueles 296 dias existiu porque em algum momento alguém olhou o calendário e escreveu uma data nele. É a única diferença entre a moto que roda e a moto que espera.
Quando der nunca dá:
Toda semana chega uma mensagem no nosso WhatsApp que começa parecida. A pessoa conhece o roteiro inteiro, sabe a quilometragem, já viu o vídeo, já leu o que escrevemos sobre altitude. E termina com "ano que vem eu vou".
Eu não tenho nada contra quem decide esperar. Tem ano que realmente não é o ano, e adiar com consciência é uma decisão legítima. O problema é outro: "quando der" não é uma data. É um lugar no futuro que nunca chega, porque sempre vai existir um motivo bom para empurrar mais um pouco. O trabalho, o dinheiro, a moto que falta ajustar, o filho pequeno, a obra da casa. Eu conheço todos eles, já usei quase todos.
A diferença entre quem vai e quem não vai raramente é dinheiro ou tempo. É se existe uma data escrita em algum lugar. Sem data, viagem é conversa.
O que a garagem faz com a moto enquanto isso:
Tem um custo prático em deixar a moto parada esperando o momento certo, e ele não aparece no hodômetro.
Pneu envelhece por tempo, não só por quilometragem. A borracha endurece e perde aderência mesmo com desenho bom, e é por isso que moto de pouca rodagem às vezes escorrega numa curva molhada que não deveria assustar ninguém. Bateria parada descarrega e morre antes da hora. Combustível velho deixa resíduo no carburador e no corpo de injeção. Fluido de freio absorve umidade com o tempo e perde eficiência. Retentor ressecado começa a vazar sozinho, sem ninguém ter rodado um metro.
A moto guardada não está sendo preservada. Está envelhecendo parada, só que sem nenhuma história em troca. Se ela vai ficar parada mesmo, pelo menos vale rodar uma vez por mês e manter a bateria em carga.
E quando a data finalmente aparecer, ela vai precisar de revisão completa de qualquer jeito. A gente já escreveu sobre o que uma travessia de altitude cobra da moto em altitude no Atacama, e sobre pilotagem em terra em rípio com segurança de Big Trail.
Marcar a data é a parte barata:
Essa é a parte que me parece mal compreendida. Marcar a data não compromete você com nada caro no dia em que marca. O que ela faz é ligar o resto.
A linha do tempo que eu uso em toda expedição começa seis meses antes. Seis meses: destino definido e janela de data fechada. Cinco meses: a conversa séria com quem vai junto, sobre ritmo, nível de hotel e quanto cada um topa gastar. Quatro meses: documentos, passaporte e Permissão Internacional para Dirigir. Três meses: roteiro dia a dia com quilometragem real. Dois meses: seguro contratado e revisão da moto, com pneu novo se faltar menos de 8.000 quilômetros de vida. Um mês: teste de bagagem numa rodada de fim de semana. A última semana é para não fazer nada, porque equipamento novo precisa de pelo menos 300 quilômetros de teste antes de virar responsabilidade sua no meio do nada.
Repara que o dinheiro grande aparece lá na frente, diluído, e que nada disso acontece sem o primeiro item. A data é o que organiza a vida ao redor dela. Enquanto ela não existe, o resto fica em modo de espera, inclusive a moto.
O que eu diria para quem está parado agora:
Não é um chamado grandioso. É uma pergunta de calendário.
A Expedição Atacama sai de Florianópolis em 20 de março de 2027. São catorze dias, 7.134 quilômetros, doze deles de estrada, com média de 594 quilômetros por dia e grupo de no máximo vinte pessoas. O primeiro lote fica aberto até 30 de outubro de 2026.
Pega o seu calendário e olha a segunda quinzena de março de 2027. Vê se catorze dias cabem ali. Vê se dá para pedir as férias nessa janela, ou se existe um jeito de encaixar. Essa é a decisão de hoje, e ela não custa nada.
Se não couber, tudo bem, não cabe. Mas aí você decidiu, em vez de empurrar. E já fica sabendo qual é a próxima janela que cabe.
Os amigos levaram sete anos para chegar no Agua Negra. Chegaram, e aquilo valeu cada metro. Só não precisava ter levado sete anos.
Em resumo:
A moto que fica na garagem esperando o momento certo costuma esperar anos, porque "quando der" não é uma data e por isso nunca chega. A diferença entre quem viaja e quem adia quase nunca é dinheiro ou tempo disponível, e sim ter uma data escrita no calendário, que é o que faz o resto do planejamento acontecer. Enquanto isso, a moto parada envelhece do mesmo jeito: pneu endurece por tempo, bateria morre, combustível deixa resíduo e fluido de freio absorve umidade, só que sem nenhuma viagem em troca. O passo concreto é olhar uma data real, como a saída da Expedição Atacama em 20 de março de 2027, e decidir se ela cabe ou não cabe, em vez de deixar em aberto.