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594 km por dia no Atacama: dá para aguentar?

A média de quilometragem da Expedição Atacama assusta quem abre a planilha pela primeira vez. O que a média esconde, por que o dia mais longo não é no deserto e o que dá para treinar antes de março.

594 km por dia no Atacama: dá para aguentar?

Quem abre o roteiro da Expedição Atacama pela primeira vez costuma parar na mesma linha. São 7.134 km em 14 dias, sendo 12 de estrada e 2 parados em San Pedro de Atacama. Divide um pelo outro e dá 594 km por dia. A pergunta que chega no WhatsApp logo depois é sempre a mesma, com as mesmas palavras: dá para aguentar isso?

Dá. Mas a resposta honesta precisa de uma coisa que a média esconde.

A média é uma conta, não é o seu dia:

Nenhum dia da expedição tem 594 km. Esse número é só a soma dividida por doze. Os dias de verdade são estes:

Dia 1, Florianópolis a Santo Ângelo, 718 km. Dia 2, até Resistencia, 576 km. Dia 3, até Santiago del Estero, 611 km. Dia 4, até Salta, 531 km. Dia 5, Salta a San Pedro de Atacama, 595 km, que é o dia do Paso de Jama. Dias 6 e 7, nenhum quilômetro, a moto fica parada no hotel. Dia 8, San Pedro a Antofagasta, 312 km. Dia 9, até Copiapó, 610 km. Dia 10, até Aimogasta, 641 km, que é o dia do Paso San Francisco. Dia 11, até Villa Carlos Paz, 531 km. Dia 12, até Santa Fé, 476 km. Dia 13, até São Borja, 641 km. Dia 14, São Borja a Florianópolis, 892 km.

Olhe de novo para o dia 8. São 312 km, menos da metade da média, e ele vem logo depois de dois dias inteiros sem subir na moto. O roteiro não é uma linha reta de esforço. Ele tem respiro, e o respiro está no lugar certo, bem no meio da viagem.

O dia mais longo não é no deserto:

É o último, 892 km de São Borja até Florianópolis. E é o mais fácil dos longos.

Isso não é contradição. Esse trecho é asfalto conhecido, sem fronteira, sem altitude, sem surpresa de estrada. É rodovia que a maioria do grupo já rodou antes, no sentido de casa, com a cabeça já de volta. Dia de muito quilômetro e pouca decisão cansa menos do que dia de pouco quilômetro e muita decisão.

O dia 1, com 718 km, funciona pelo mesmo motivo ao contrário. É longo, mas o grupo está inteiro, descansado e animado. Os dias que realmente pesam são os do meio, e eles são justamente os mais curtos.

O que cansa não é o quilômetro, é o que você faz com ele:

Em dez anos de estrada, ninguém nunca desistiu de uma etapa por causa da distância. Desgaste vem de três coisas, nessa ordem.

Postura. Quem passa oito horas travado no guidão chega quebrado com 400 km. Quem alterna, levanta nas pedaleiras de vez em quando, solta os ombros nas retas e deixa o peso no banco e não nos braços, chega inteiro com 700. É a mesma estrada, é corpo diferente em cima dela.

Desidratação. No altiplano o ar é tão seco que o suor evapora antes de você perceber que suou. Dá sede tarde demais. O jeito que funciona é beber por relógio e não por vontade, um pouco a cada parada, mesmo sem sentir falta.

Parada mal feita. Parar de duas em duas horas resolve mais do que sair uma hora mais cedo. Dez minutos fora da moto, capacete aberto, água e caminhar um pouco, e o corpo reseta. Quem emenda quatro horas para ganhar tempo paga isso na quinta.

A altitude cobra o dobro no mesmo quilômetro:

O dia 5 tem 595 km, praticamente a média da viagem. É o dia mais puxado do roteiro.

O motivo é que ele sobe. O Paso de Jama fica a 4.275 metros, e a estrada passa horas lá em cima antes de descer para San Pedro. Na volta, o Paso San Francisco chega a 4.726 metros, uma das estradas mais altas do mundo. Em altitude o corpo trabalha com menos oxigênio, a cabeça fica mais lenta para decidir e o cansaço chega antes. A moto sente o mesmo e perde força na subida.

Por isso o grupo dorme três noites em San Pedro e não uma. O corpo precisa de tempo, não de coragem. Escrevemos um artigo inteiro sobre isso em altitude no Atacama: o que acontece com você e com a moto, e vale ler antes de olhar a planilha de quilometragem, porque é ele que explica por que 595 km podem ser mais duros que 892.

O ritmo de grupo não é o ritmo de quem vai sozinho:

Quem viaja sozinho decide tudo: a hora de sair, onde almoçar, quando desistir e dormir antes. Em grupo o dia tem uma estrutura, e essa estrutura é o que faz os 594 km caberem.

Saída cedo e combinada na noite anterior, no briefing. Pontos de reagrupamento marcados, então ninguém pilota com medo de ficar para trás. Almoço rápido, porque almoço longo rouba a melhor luz da tarde. E o carro de apoio junto o tempo todo, com a bagagem pesada dentro e espaço para a sua se o dia apertar.

Esse último ponto muda mais do que parece. Moto leve cansa menos, freia melhor e vira mais fácil no vento cruzado do altiplano. Se a sua moto é a certa para isso é outra conversa, e ela está em qual moto encara o Atacama.

O que dá para treinar antes de março:

A saída é 20 de março de 2027. De hoje até lá dá tempo de sobra para chegar pronto, e preparação aqui não é academia, é moto.

Faça dois dias de 600 km seguidos, num fim de semana. Não um dia de 600 e descanso. Dois seguidos, com a moto carregada como ela vai estar na viagem. É esse segundo dia que mostra o que precisa mudar.

Resolva o banco. Banco ruim é o que mais tira gente de etapa longa, e tem solução simples e barata com qualquer tapeceiro que trabalhe com moto. Se você já sabe que depois de 300 km começa a trocar de posição toda hora, o problema é o banco.

Ajuste o para-brisa na altura certa. Turbulência de capacete por oito horas vira dor de pescoço no terceiro dia.

Teste a roupa em calor de verdade. O norte argentino é quente, e jaqueta sem ventilação transforma um dia comum em um dia difícil.

E ande de moto nos dias ruins. Frio, vento, chuva fraca. Não por heroísmo, mas porque é isso que mostra se o seu equipamento serve antes de você descobrir no meio de uma expedição.

Resumo: dá para aguentar 594 km por dia?

Dá, e a maioria das pessoas se surpreende com a facilidade depois do terceiro dia. Mas o número da média engana nos dois sentidos.

A Expedição Atacama tem 7.134 km divididos em 12 dias de estrada, com 2 dias parados em San Pedro de Atacama. As etapas vão de 312 km a 892 km. A mais longa é a última, em rodovia conhecida e sem altitude, e é das mais fáceis. A mais puxada é a do dia 5, com 595 km, porque ela sobe o Paso de Jama a 4.275 metros.

O que define se você chega inteiro não é a distância, é postura na moto, água, parada de duas em duas horas e um banco que não te castiga. Quem já fez viagem de vários dias seguidos de big trail aguenta o roteiro sem drama. Quem nunca passou de dois dias na estrada não deveria estrear aqui, e isso a gente fala na primeira conversa, não depois do contrato assinado.

A preparação que funciona cabe num fim de semana: dois dias de 600 km seguidos, com a moto carregada. O que aparecer nesse segundo dia é exatamente o que ia aparecer no dia 4 da expedição, só que ainda dá tempo de resolver.

O roteiro completo, dia a dia, com a quilometragem de cada etapa, está na página da Expedição Atacama.