A N222 no Vale do Douro: 93 curvas entre o rio e as vinhas
O que esperar do trecho entre Peso da Régua e Pinhão, de onde vem o título de melhor estrada do mundo e por que ele cai no quarto dia da Expedição Portugal e Espanha, numa etapa de 389 km entre Porto e Salamanca.

São 93 curvas entre Peso da Régua e Pinhão. É esse o trecho da N222 que uma locadora de carros elegeu melhor estrada do mundo em 2015, e que desde então aparece em quase toda lista de estrada bonita da Europa. Na Expedição Portugal e Espanha ele cai no quarto dia, 25 de maio de 2027, dentro de uma etapa de 389 quilômetros que sai do Porto e termina em Salamanca.
Esse é o dia que mais aparece nas conversas de quem está decidindo o roteiro. Vale explicar o que ele é de verdade, o que ele não é, e por que a estrada do Douro é só o começo da jornada.
O que é a N222, na prática
A N222 é uma estrada nacional portuguesa, dessas antigas, de pista simples, uma faixa para cada lado. O pedaço famoso é curto. Ele acompanha a margem sul do rio Douro entre Peso da Régua e Pinhão, duas vilas pequenas separadas por pouco mais de meia hora de moto, se você for sem parar. Quase ninguém vai sem parar.
O que faz o trecho ser o que é não é a extensão, é o desenho. A estrada foi aberta seguindo a curva do rio, numa época em que ninguém cortava morro para deixar a via reta. Então ela sobe, desce e serpenteia colada na água, com as vinhas em socalcos subindo a encosta do outro lado. Socalco é o terraço escavado na pedra onde a vinha cresce. São séculos de trabalho manual empilhados ali, e de cima da moto você vê isso de um jeito que ninguém de carro vê.
De onde vem o título de melhor estrada do mundo
Vale saber a origem, porque o título é citado como se fosse consenso científico e não é bem isso. Em 2015 a Avis, uma locadora de veículos, encomendou um estudo que comparou 25 estradas conhecidas e criou um índice próprio, medindo a proporção entre tempo em reta e tempo em curva. A conta deu que a relação ideal seria dez segundos de reta para cada segundo de curva. O trecho do Douro ficou em onze para um, o mais perto do número ideal entre as 25.
É uma iniciativa de marketing de uma empresa de aluguel de carro, e segue sendo repetida até hoje porque o resultado casa com o que quem roda por lá sente. Não é um prêmio de federação nem resultado de pesquisa independente. Mas o trecho é mesmo muito bom, e a fama trouxe o lado chato dela também, que é mais gente na estrada.
Como é pilotar ali
Primeira coisa: não é um lugar para andar rápido. A pista é estreita, o guard rail nem sempre existe, e do lado de fora da curva tem uma encosta de vinha descendo até o rio. Tem ônibus de excursão, tem carro de turista parando no meio da pista para fotografar, tem trator de vinícola saindo de portão sem aviso. O prazer está em pegar o ritmo da estrada, não em bater tempo.
Segunda: o piso é asfalto, todo pavimentado, mas com remendo e com areia solta na saída dos acessos de propriedade. Em maio a chance de chuva existe, e molhado ali pede mais margem.
Terceira: a vista é do lado do rio, o que quer dizer que metade das curvas você está olhando para a paisagem e a outra metade para o barranco. Quem quiser mesmo ver precisa parar. Dá para parar. Existem miradouros sinalizados e paradas de beira de estrada, e a etapa foi montada com folga justamente para isso.
A estação de trem do Pinhão merece a parada. Ela é pequena e tem painéis de azulejo português cobrindo as paredes, com cenas da colheita da uva. Fica a poucos metros da estrada e costuma ser o ponto onde o grupo se junta de novo.
O dia não é só o Douro
Aqui mora o mal-entendido mais comum. Quem olha a palavra N222 no roteiro imagina um dia inteiro de curva à beira do rio. Não é isso. Os 389 quilômetros do quarto dia saem do Porto, descem até a região do Douro, pegam o trecho famoso, seguem subindo o vale pelo interior e cruzam para a Espanha em Barca d'Alva, numa fronteira de estrada de interior, sem fila e sem cancela.
Do outro lado a paisagem muda rápido. Acaba o verde fechado do vale e começa a meseta castelhana, aberta, seca e com horizonte longo. Em poucas horas você passa da estrada mais sinuosa da viagem para a mais reta. Salamanca aparece no fim da tarde, com a Plaza Mayor e a catedral em pedra dourada.
É uma etapa comprida, uma das maiores do roteiro. A média da viagem fica em 283 quilômetros por dia ao longo dos nove dias de estrada, então esse dia está acima da média de propósito. Quem for de garupa sente a diferença nesse dia específico, e vale saber disso antes.
Por que maio e não outro mês
A viagem sai em 22 de maio de 2027 por um motivo prático. No Douro, maio é fim de primavera. A vinha está verde e cheia, o calor ainda não apertou e o movimento de turismo não chegou ao pico de julho e agosto. A colheita, que é a época mais bonita do vale, acontece em setembro, mas vem junto com caminhão de uva na estrada e vila lotada.
Na parte espanhola, a conta se inverte. Salamanca, Cáceres e a Andaluzia esquentam de verdade a partir de junho. Sevilha e Córdoba em pleno verão passam fácil dos 40 graus, e isso com equipamento de pilotagem vira um problema de segurança, não de conforto. Sair em 22 de maio pega o Douro cheio e a Andaluzia ainda respirável.
O que vem antes, dois dias no Porto
O dia da N222 não começa frio. Antes dele tem a subida de Lisboa até o Porto pela costa, com Óbidos, Coimbra e Aveiro no caminho, e depois um dia livre inteiro no Porto, com o grupo dormindo duas noites em Vila Nova de Gaia, do lado das caves de vinho.
Esse dia livre existe para duas coisas. Primeira, descansar antes da etapa mais longa da primeira metade. Segunda, entender o Douro antes de pilotar nele. O vinho do Porto que envelhece nas caves de Gaia vem exatamente das vinhas que você vai ver no dia seguinte. Visitar uma cave antes muda o que você enxerga da estrada.
Quem não quiser descer da moto no dia livre tem a opção de um circuito curto pelo Minho.
O que está incluso nesse dia
A moto é BMW, alugada em Lisboa no primeiro dia, com baú e malas laterais, seguro incluso. As motos saem com Via Verde instalado, que é o sistema de portagem eletrônica de Portugal, então as praças de pedágio portuguesas não param o grupo.
A bagagem grande vai na van de apoio, que acompanha o grupo todo dia. Na moto fica só o do dia. Numa etapa como a do Douro isso conta, porque moto leve em pista estreita responde melhor.
A hospedagem é em hotel de categoria premium, no mínimo três estrelas, com café da manhã. Combustível, pedágio na Espanha, almoço e jantar ficam por conta de cada um. Se você quiser ver com mais detalhe como funciona a conta de uma viagem dessas, já escrevemos sobre isso em /blog/quanto-custa-viajar-de-moto-pela-europa.
E sobre documento, a carteira brasileira resolve em Portugal e na Espanha, com uma ressalva sobre a PID e sobre o cartão de crédito da caução da moto, que está explicada em /blog/precisa-de-cnh-internacional-para-portugal-e-espanha.
Resumo
A N222 é uma estrada nacional portuguesa, e o trecho famoso dela é o pedaço entre Peso da Régua e Pinhão, com 93 curvas acompanhando a margem do rio Douro no meio das vinhas em socalcos. Foi eleita melhor estrada do mundo em 2015 num estudo encomendado pela locadora Avis, que criou um índice de proporção entre reta e curva. É pista simples, estreita, toda asfaltada, sem lugar para andar rápido, com turismo e trator dividindo o espaço. Na Expedição Portugal e Espanha ela entra no quarto dia, 25 de maio de 2027, numa etapa de 389 quilômetros entre Porto e Salamanca que depois cruza para a Espanha em Barca d'Alva e troca o vale fechado pela meseta aberta. Maio é o mês certo porque pega a vinha verde no Douro e a Andaluzia antes do calor.
A Expedição Portugal e Espanha sai em 22 de maio de 2027 e termina em 4 de junho. São 14 dias, 2.549 quilômetros, nove dias de estrada e três dias livres, no Porto, em Sevilha e em Granada. O grupo fecha em dez motos, com dois guias, um na moto e um na van. O roteiro dia a dia está em /tours/portugal-espanha-2027.
O primeiro lote vale até 31 de dezembro de 2026, ou até a quarta moto fechar, o que vier primeiro. O pagamento é 10% de sinal na assinatura do contrato e o saldo parcelado até a data da viagem.